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O risco que ainda não entrou na conta do armazenamento em baterias

*Por Kátia Katia Garcia, Líder técnica de Transição Energética e Sustentabilidade do Cepel

O armazenamento em baterias deixou de ser uma aposta tecnológica e passou a ser uma peça estrutural da transição energética e da operação dos sistemas elétricos. No Brasil, a contratação de reserva de capacidade com sistemas de armazenamento marca um primeiro movimento relevante nessa direção, com a publicação da Portaria Normativa MME nº 136, de 1º de junho de 2026, que estabelece as diretrizes e a sistemática para a realização dos Leilões para Contratação de Potência Elétrica, a partir de novos sistemas de armazenamento de energia em baterias.

O debate, como era esperado nessa fase inicial, está concentrado em preço, desenho regulatório e viabilidade dos projetos. Mas existe uma camada de discussão que permanece pouco explorada.

À medida que o armazenamento ganha escala, ele começa a carregar também uma dimensão industrial e regulatória associada ao ciclo de vida das baterias. Isso envolve desde a origem dos materiais até o destino dos equipamentos depois de anos de operação.

China e Chile ajudam a enxergar essa transição.

Em 2025 os projetos de armazenamento de energia na China atingiram uma capacidade total instalada de 189,48 GWh, consolidando a posição de liderança do país no mercado internacional de armazenamento de energia. Esse crescimento rápido levou à necessidade de organizar rastreabilidade, reciclagem e estruturas para lidar com o volume crescente de equipamentos que inevitavelmente vão sair de operação nos próximos anos. As projeções apontam para mais de 1 milhão de toneladas de baterias em fim de vida ao longo da próxima década, em grande parte associadas à eletrificação, mas com efeitos que atravessam toda a cadeia de armazenamento.

Na América Latina, o Chile, em outra escala, já ultrapassa cerca de 4,5 GWh de capacidade instalada. O movimento por lá também veio acompanhado de regras de responsabilidade estendida e de uma preocupação crescente com o que acontece com esses ativos ao longo do tempo, antes mesmo de haver um volume relevante de descarte.

O padrão se repete. A regulação começa a se estruturar enquanto o mercado ainda está crescendo.

No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos oferece um ponto de partida, mas ainda não responde às especificidades de sistemas de armazenamento de grande porte. A discussão sobre rastreabilidade, reciclagem e reaproveitamento ainda está em fase inicial, sem uma estrutura consolidada para o setor.

Quando essa lente é trazida para a análise financeira, o tema muda de patamar.

Os referenciais IFRS S1 e S2 (recentemente tornado facultativo pela CVM, e que gerou reações diversas no mercado) buscam justamente explicitar riscos socioambientais, climáticos, de transição e de governança que podem afetar o fluxo de caixa, valor dos ativos e o custo de capital. O ciclo de vida das baterias se encaixa nesse grupo de forma direta, mesmo que parte desses impactos ainda não esteja plenamente visível nas estruturas atuais de mercado.

Não é possível estimar com precisão quanto isso pode representar em termos de CAPEX e OPEX no Brasil neste momento. Falta escala, falta histórico e falta um arcabouço regulatório que permita mensuração consistente. Essa incerteza, no entanto, já é relevante por si só.

Em infraestrutura, o que não é medido tende a aparecer mais à frente como ajuste de premissa, custo adicional ou revisão de expectativa de retorno.

O armazenamento terá papel central na expansão das renováveis. Esse movimento está consolidado. O ponto que ainda está em aberto é como o setor vai incorporar os efeitos de longo prazo do ciclo de vida desses ativos nas decisões de investimento.

O que parece acessório hoje pode ser parte relevante da conta amanhã.

Fontes:

· Portaria Normativa MME nº 136, de 1º de junho de 2026

· Regulation (EU) 2023/1542 of the European Parliament and of the Council of 12 July 2023 concerning batteries and waste batteries

· Res. Ex. nº 1138, do Ministério do Meio Ambiente do Chile, publicada no Diário Oficial em 14 de novembro de 2024 · China National Energy Administration (https://en.cnesa.org/), acesso em 05 de junho de 2026.

· Energy Storage Industry White Paper 2026. (Summary Version). Energy Storage Committee, China Energy Research Society. China Energy Storage Alliance

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