Entidade destaca vulnerabilidades na operação nos segmentos de geração, transmissão e distribuição
Mesmo com a perspectiva de aumento do volume de chuvas em regiões estratégicas para a geração hidrelétrica, o setor elétrico brasileiro deve manter o alerta para os impactos operacionais provocados pelo avanço de eventos climáticos extremos associados ao El Niño. A avaliação foi realizada pelo Cepel (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica), instituição de referência do setor elétrico na América Latina, que analisou os possíveis efeitos do fenômeno sobre a infraestrutura e a operação do Sistema Integrado Nacional (SIN).
Os ventos associados a tempestades severas podem causar danos estruturais, incluindo quedas de torres de transmissão e interrupções no fornecimento. A persistência de temperaturas mais elevadas pode aumentar a evaporação em reservatórios de usinas hidrelétricas, comprometendo a geração de energia. Os setores de distribuição e transmissão também são afetados, uma vez que esse aquecimento mais pronunciado aumenta a probabilidade de degradação do isolamento elétrico e ocorrência de curtos-circuitos em equipamentos. Combinada à baixa umidade, o aumento das temperaturas favorece a ocorrência e propagação de queimadas que também ameaçam as Linhas de Transmissão (LT’s).

Empresas com maior maturidade na gestão de ativos conseguem reduzir a extensão dos impactos, mas ainda enfrentam custos relacionados a obras emergenciais, manutenção e reconstrução. Dados das últimas análises, mostram que eventos extremos de precipitação podem aumentar em torno de 30% em média para as regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste, que juntas englobam mais de 50% das LTs do país e das subestações acima de 500 kv.
“A observação dos eventos do El Niño ocorridos de 1961 a 2023/2024 mostra que, neste ano de 2026, os reservatórios serão beneficiados com uma recuperação hídrica. Porém, o fenômeno pode ampliar os riscos para linhas de transmissão, subestações e redes de distribuição, com eventos extremos regionalizados que acometerão boa parte do território nacional”, informa Katia Garcia, líder de sustentabilidade do Cepel.
Na análise do Cepel, o principal desafio do setor elétrico será o de transformar a previsão climática em planejamento operacional. Entre as medidas que serão necessárias estão o mapeamento da exposição dos ativos, a identificação de vulnerabilidades regionais e a construção de cenários capazes de considerar diferentes impactos, desde períodos de estiagem até volumes de chuva acima da média tendo em vista que o país será atingido de diferentes formas pelo fenômeno.
Para apoiar esse desafio, o Cepel reúne competências em modelagem climática e simulação elétrica, gestão de ativos, inteligência de dados, monitoramento da infraestrutura, avaliação de riscos climáticos, digitalização de redes e desenvolvimento de tecnologias para aumentar a resiliência do sistema elétrico. A atuação combina pesquisa aplicada, ensaios laboratoriais e soluções voltadas à tomada de decisão, permitindo que empresas antecipem vulnerabilidades, priorizem investimentos e fortaleçam a confiabilidade de seus ativos.
“Os eventos climáticos extremos deixaram de representar apenas um desafio ambiental e passaram a ser um tema estratégico para as empresas de energia. Transformar dados em inteligência operacional e planejamento é o caminho para aumentar a resiliência da infraestrutura e garantir segurança energética. O Cepel atua justamente conectando ciência, tecnologia e inovação para apoiar o setor nessa transformação.”, Rodrigo Regis, diretor de Infraestrutura e Negócios do Cepel.
“A preparação das empresas do setor será fundamental para antecipar e prevenir riscos, reduzir impactos operacionais e fortalecer a infraestrutura elétrica. O desafio não está apenas na geração de energia, mas também na capacidade de transmissão e distribuição suportarem eventos climáticos cada vez mais intensos”, ressalta ainda Katia.
Previsões Climáticas
O fenômeno El Niño consolidou-se no oceano Pacífico Equatorial em junho deste ano. A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) estima uma probabilidade de aproximadamente 81% de ocorrência de um evento muito forte, especialmente durante o trimestre entre outubro e dezembro de 2026.
No Brasil, estudos através de dados observados e eventos El Niño no passado indicam crescimento do volume de precipitação no Sul (+31%), Sudeste (+28%) e Centro-Oeste (+27%). Por outro lado, Norte e Nordeste podem registrar redução das chuvas, com estimativas de queda de -6% e -3%, respectivamente. Nessas regiões, a complementaridade de fontes como eólica e solar seguirá sendo estratégica para garantir segurança energética e equilíbrio de custos.
“O aumento da intensidade dos eventos climáticos representa uma preocupação das empresas para os seus ativos. A enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul, em 2024, evidenciou a vulnerabilidade de instalações submetidas a grandes volumes de água, com impactos em subestações e linhas de transmissão, com efeito cascata tanto localmente, quanto no SIN”, afirma Katia.
Dados que mitigam
Além dos desafios operacionais, as empresas do setor elétrico também passam a ser mais pressionadas por investidores e financiadores em relação à transparência sobre riscos climáticos. Apesar de ainda estar em intenso debate a obrigatoriedade do atendimento às normas IFRS S1 e IFRS S2, há sem dúvida uma necessidade de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, riscos e oportunidades associados ao clima. Para o Cepel, esse movimento representa uma oportunidade para que empresas avancem em estratégias de adaptação e resiliência operacional.
“Antecipar os efeitos do El Niño por meio de dados, monitoramento e planejamento permite que as empresas construam uma agenda mais robusta de gestão de risco climático. A identificação antecipada das vulnerabilidades fortalece a capacidade de adaptação, resposta e recuperação, orientando investimentos, reduzindo impactos e aumentando a confiabilidade do sistema elétrico. Por isso, a agenda climática deve ser tratada não apenas como uma agenda ambiental, mas como uma agenda de negócios, capaz de orientar decisões estratégicas, proteger ativos e fortalecer a resiliência das organizações.”, afirma Katia.
O alerta do Cepel também ressalta a importância de sistemas inteligentes para a eficiência das redes, soluções laboratoriais para integridade, inovação em materiais, sistemas de otimização do ciclo de vida dos ativos elétricos, são pilares que podem definir como as empresas passarão por esta crise climática caracterizada pelo El Niño.