
Nos últimos anos, a expansão da geração solar e eólica aumentou a complexidade da operação do sistema elétrico. Nesse cenário, modelos computacionais cada vez mais precisos tornam-se essenciais para apoiar a tomada de decisão e garantir a segurança operativa.
É justamente nesse contexto que se insere o trabalho apresentado pelo pesquisador André Diniz, da Gerência Executiva de Modelos (GEM), durante a PSCC 2026 (Power Systems Computation Conference), uma das mais importantes conferências internacionais voltadas à pesquisa em sistemas elétricos de potência. Realizado entre os dias 8 e 12 de junho, em Limassol, no Chipre, o evento reúne especialistas de todo o mundo para discutir os avanços que irão moldar o futuro da operação e do planejamento dos sistemas elétricos.
O estudo, desenvolvido em parceria com as pesquisadoras da GEM, Danielle de Freitas e Amanda Azevedo, aborda a evolução do modelo DESSEM, ferramenta utilizada oficialmente pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para definir o despacho das usinas no curto prazo e que também serve de base para a formação do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).
Um modelo que evolui junto com o setor
Desde que passou a ser utilizado oficialmente em 2020, o DESSEM vem incorporando novos aperfeiçoamentos para representar de forma cada vez mais fiel as condições reais de operação do sistema elétrico brasileiro.
O trabalho apresentado na PSCC trata de um desses avanços: a incorporação de restrições hidráulicas complexas relacionadas à evolução dos níveis dos reservatórios e às taxas de variação das vazões. Embora pouco visíveis para quem está fora do setor, essas restrições influenciam diretamente a forma como as usinas hidrelétricas podem operar ao longo do tempo.
Para André Diniz, a evolução do DESSEM acompanha as transformações que vêm ocorrendo no setor elétrico.
“Desde sua entrada oficial, em janeiro de 2020, o DESSEM continua evoluindo com o objetivo de representar, da forma mais acurada possível, os novos aspectos operativos que vêm surgindo ao longo do tempo. Em particular, a representação adequada das restrições hidráulicas permite explorar melhor a flexibilidade na geração das usinas hidrelétricas, aspecto crucial em um cenário de crescente participação de fontes renováveis com maior variabilidade”, destaca.
Impactos que vão além da modelagem
Os resultados desse desenvolvimento já vêm sendo incorporados à operação do setor elétrico. Entre os produtos associados ao trabalho estão a versão 21 do DESSEM, utilizada oficialmente a partir de março de 2025, e a versão 22, vigente desde março de 2026.
Essas evoluções contribuíram para uma representação mais aderente das condições operativas do sistema e para uma formação mais realista do preço horário da energia, refletindo com maior precisão as restrições consideradas pelo ONS no processo de despacho.
O trabalho também está relacionado à versão 22.3 do modelo, atualmente em validação pelo CT PMO/PLD – Comitê Técnico do Programa Mensal da Operação (PMO), e do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), comitê coordenado pelo ONS e pela CCEE, com possibilidade de implantação ainda em 2026.
- Desenvolvimento;
- Testes;
- Validação técnica no CT PMO/PLD, e aí sim
- Implantação oficial.
Os desenvolvimentos estão alinhados às diretrizes estabelecidas pela Lei nº 15.269/2025 e pela MP 1304, que contemplam, entre outros aspectos, a incorporação de restrições de rampa (variações graduais na geração das usinas) e de defluência (controle da vazão liberada pelos reservatórios) nos modelos de otimização energéticos utilizados oficialmente pelo setor elétrico brasileiro.
Pesquisa brasileira em destaque internacional
A apresentação na PSCC 2026 reforça a presença contínua do Cepel em um dos mais relevantes fóruns internacionais dedicados à modelagem e à operação de sistemas elétricos. Desde 2008, pesquisadores do Centro participam da conferência compartilhando avanços relacionados aos modelos computacionais desenvolvidos no Brasil e utilizados por agentes do setor.
Em um contexto de crescente complexidade operativa e expansão das fontes renováveis, acompanhar essa transformação exige modelos capazes de traduzir, com cada vez mais precisão, a realidade do sistema elétrico brasileiro.
E é justamente essa busca contínua por aperfeiçoamento que mantém o DESSEM evoluindo junto com o setor que ele ajuda a operar.