Expansão da transição energética exige soluções mais inteligentes para ampliar eficiência e reduzir degradação operacional dos ativos
O armazenamento de energia por baterias deixou de ser apenas uma promessa tecnológica para se tornar uma das principais apostas da transição energética. Com o avanço das fontes renováveis e a necessidade crescente de flexibilidade operacional no sistema elétrico, os sistemas BESS (Battery Energy Storage System) caminham para uma expansão acelerada no Brasil. Mas, à medida que o mercado amadurece, uma nova preocupação começa a ganhar espaço no setor: como operar esses ativos de forma eficiente ao longo do tempo, evitando perdas de desempenho, prolongando sua vida útil e maximizando o retorno econômico?
A discussão já não está mais centrada apenas na expansão da capacidade instalada. O desafio agora é garantir que as baterias consigam entregar valor ao longo dos anos sem que a degradação prematura transforme um ativo estratégico em um problema operacional e financeiro.
Um estudo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE) projeta que o setor pode movimentar até R$ 77 bilhões e alcançar 72 GWh de capacidade instalada até 2034. O crescimento esperado do armazenamento no país amplia também a necessidade de soluções capazes de otimizar a operação desses sistemas. Isso porque a degradação das baterias nem sempre acontece de forma visível. Ciclos frequentes de carga e descarga, operação contínua próxima aos limites de potência, altas temperaturas e estratégias de despacho focadas apenas no ganho imediato aceleram o desgaste das células e reduzem a capacidade operacional ao longo do tempo.

“O setor começa a perceber que o desafio não é apenas instalar sistemas de armazenamento, mas garantir que esses ativos operem de forma eficiente, confiável e economicamente viável durante toda a sua vida útil”, explica Francisco Lopes, pesquisador do Cepel.
Os impactos vão além do desempenho técnico. Uma gestão inadequada pode ampliar significativamente o prazo de retorno sobre investimento dos projetos, reduzir ganhos econômicos em aplicações, como arbitragem de energia e peak shaving*, e aumentar custos operacionais associados à substituição prematura de equipamentos. A forma de operação desses sistemas também é um fator determinante para seu desempenho ao longo do tempo. Estratégias adequadas permitem mitigar a degradação, melhorar a eficiência e ampliar a vida útil dos ativos, contribuindo para uma operação mais previsível.
Na prática, a transição energética cria uma nova camada de complexidade para o setor elétrico: não basta expandir o uso das tecnologias renováveis; será necessário operar esses ativos com inteligência suficiente para garantir seu desempenho técnico e econômico ao longo do tempo.
É nesse contexto que os sistemas avançados de gerenciamento energético em nível de planta, conhecidos como plant-level Energy Management Systems (EMS), começam a ganhar protagonismo. Essas plataformas coordenam quando, quanto e como os sistemas devem carregar ou descarregar energia, considerando variáveis como demanda, tarifas e condições do sistema elétrico. Ao integrar monitoramento contínuo e modelos de otimização, o EMS permite reduzir desgastes desnecessários, ampliar a previsibilidade operacional e equilibrar desempenho energético com preservação da vida útil das baterias.
“O armazenamento passa a exigir uma lógica de operação muito mais sofisticada. A inteligência aplicada ao gerenciamento energético será determinante para extrair valor econômico sem comprometer a saúde dos ativos”, destaca Francisco Lopes.
O Cepel já atua diretamente nesse movimento por meio de projetos de Pesquisa & Desenvolvimento voltados à otimização de sistemas híbridos e armazenamento energético. Um exemplo é uma solução desenvolvida para a planta híbrida contendo geração fotovoltaica, produção de hidrogênio e armazenamento de energia por BESS da UHE Itumbiara. Nesse contexto, o EMS desenvolvido permitiu otimizar de forma integrada a operação dos ativos conectados à microrrede local, contribuindo para uma redução de 10% no custo operacional de produção de hidrogênio em comparação ao cenário sem otimização.
“A tendência é que, nos próximos anos, a inteligência operacional se torne tão estratégica quanto a própria expansão do armazenamento no setor elétrico brasileiro”, conclui Francisco.
*Estratégia utilizada para reduzir picos de demanda, por meio de sistemas de armazenamento para suprir parte da carga em horários estratégicos.