O Centro de Referência em Energia Solar de Petrolina (Cresp) chegou ao site da revista Exame nesta semana, em reportagem que destaca o investimento de R$ 300 milhões da AXIA Energia para transformar o sertão nordestino em um polo de inovação em energia renovável e inteligência artificial, sendo o Cresp uma das iniciativas mencionadas. Por trás desse projeto de repercussão nacional, o Cepel atua como instituição parceira de pesquisa, desenvolvimento e inovação, com participação que vai desde a concepção do Cresp até os estudos em andamento para seus desdobramentos futuros.
Do terreno ao laboratório: uma parceria que começa na origem
A escolha de Petrolina como sede do Cresp não foi aleatória, e o Cepel teve papel fundamental nisso. Ainda nos primórdios do projeto, pesquisadores do Centro realizaram estudos detalhados para a definição do terreno, avaliando não apenas o potencial de irradiação solar da região, que é um dos mais elevados do país, mas também fatores como disponibilidade de recursos hídricos, proximidade de subestações, infraestrutura viária e acesso a universidades e escolas técnicas. Esses estudos, reunidos em relatórios técnicos que serviram de base para a concepção do empreendimento, refletem exatamente o tipo de conhecimento aplicado que o Cepel acumula ao longo de décadas de pesquisa em energia e, em particular, em energia renovável.

Suporte técnico à tecnologia HCPV

No coração do Cresp está uma usina que utiliza tecnologia australiana RayGen, baseada no conceito de sistema fotovoltaico com elevada concentração (HCPV, na sigla em inglês) ao lado de uma outra usina fotovoltaica sem concentração integrada à rede. Na usina HCPV são 273 espelhos helioestatos distribuídos em aproximadamente 10 hectares que concentram a radiação solar em uma torre de 40 metros, gerando 1 MW elétrico e 2,2 MW térmicos, com eficiência global superior ao de usinas fotovoltaicas convencionais considerando o aproveitamento de geração térmica.
Nesse contexto, o Cepel atua como parceiro de suporte técnico à AXIA, com um conjunto de atividades que incluem a avaliação do potencial de aproveitamento da energia térmica gerada com o resfriamento dos módulos HCPV, tanto para geração adicional de eletricidade por meio de sistemas ORC (Organic Rankine Cycles) quanto para produção de frio via chillers de absorção (sistemas de refrigeração), além de estudos sobre armazenamento de energia térmica (baterias térmicas) e simulações computacionais em regime transiente do sistema heliotérmico utilizando o programa Trnsys.
Em setembro de 2025 e março de 2026, pesquisadores do Cepel realizaram visitas técnicas à instalação. Na segunda visita, com a planta já em operação, foi possível conduzir uma avaliação preliminar do desempenho do sistema. Os pesquisadores envolvidos nessas atividades são Leonardo Vieira, Márcia Ramos, Ricardo Dutra e Alexander Polasek, com previsão de atuação até dezembro de 2026.
O Cresp e o desafio dos data centers
A reportagem da Exame chama atenção para um desdobramento estratégico do projeto: a decisão da AXIA de instalar um data center no Cresp, utilizando o calor residual da usina heliotérmica para acionar chillers de absorção e resfriar os servidores. A lógica é transformar o que seria desperdício energético em insumo produtivo, e o Cepel já está preparado para contribuir com esse avanço.
Por solicitação da AXIA, em 2025 e no início de 2026, o Cepel elaborou estudo preliminar sobre refrigeração de data centers, com estimativas de PUE (Power Usage Effectiveness), indicador que mede a eficiência energética dessas instalações. As simulações computacionais em desenvolvimento pelo Cepel poderão ainda servir de base técnica para o projeto e a avaliação das tecnologias a serem implantadas.