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Presidente da EPE e diretor-geral do ONS proferem palestras no Cepel

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Presidente da EPE e diretor-geral do ONS proferem palestras no Cepel

30-05-2017

O Ciclo de Palestras que está sendo realizado no Cepel sobre Inovação Tecnológica com Ênfase no Setor Elétrico promoveu, em 22 de maio, um encontro classificado como “histórico” pelo diretor-geral do Centro, Marcio Szechtman. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Luiz Augusto Nóbrega Barroso, e o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Eduardo Barata, estiveram presentes na Unidade Fundão do Cepel para palestrar para o corpo técnico do Centro. Barroso e Barata apresentaram panorama e perspectivas das suas empresas no evento “Os desafios da EPE e do ONS num ambiente de intensas inovações tecnológicas”.

 

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Szechtman abriu o evento, lembrando que parte importante do processo de inovação é ouvir aqueles a quem se atende, indicando que, no caso do Cepel, a EPE e o ONS estão entre seus principais interlocutores juntamente com as empresas do Grupo Eletrobras.

 

 

“Termos as duas entidades aqui demonstra o grande avanço que estamos conseguindo, com as instituições trabalhando de forma integrada, em prol do interesse comum do nosso país”, afirmou. Em seguida, o diretor-geral do Cepel passou a palavra aos convidados.

 

Luiz Augusto Barroso começou sua palestra, esclarecendo o papel da empresa como braço técnico do Ministério de Minas e Energia (MME) no âmbito do planejamento energético e eletroenergético. De acordo com o executivo, é responsabilidade da EPE realizar estudos que possibilitem ao Ministério uma tomada de decisão de política energética embasada nas melhores informações disponíveis.

 

Barroso ressaltou que a EPE vem buscando mais realismo para aproximar planejamento e operação principalmente. Para tanto, a empresa tem travado um intenso diálogo com agentes do setor, academia e centros de pesquisa, como o Cepel. O executivo, que considera fundamental o trabalho em parceria com o Centro, aproveitou para citar a participação do Cepel nos recém-firmados Acordos de Cooperação entre ONS e EPE com o Centro Nacional de Control de Energia do México.

 

Futuro: renováveis e “prosumidores”

 

Para abordar especificamente a questão da inovação, Barroso traçou um breve panorama sobre o futuro do setor energético em nível mundial. Um dos relatórios da Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena) mostra que, no atacado, presencia-se a redução do preço da energia solar, ao longo do tempo, em diversos países do mundo. “Há 7 anos, se comprava solar a 200 dólares. Hoje, se compra a 30 dólares. Houve uma redução de custos brutal. Isto está fazendo com que a geração solar e a eólica sejam tecnologias competitivas”, afirma o especialista.

 

Já no varejo, o que se vislumbra é o empoderamento do consumidor, ou seja, a vontade de o consumidor participar cada vez mais do sistema elétrico, sendo um autoprodutor – produzindo sua própria energia – ou um “prosumidor” - produzindo sua energia e vendendo o excedente à rede. Esta venda ocorre, muitas vezes, em resposta à demanda. Por exemplo, nos Estados Unidos, cerca de 15 mil MW são fornecidos por diferentes tipos de consumidores – escolas, residências, indústrias, hospitais. E a tendência é que esta prática se torne mais comum.

 

Neste contexto, de acordo com Barroso, será preciso conviver, cada vez mais, com tecnologias com custo variável de produção desprezível, como os da eólica e da solar. Tecnologias estas que também apresentam perfil de produção de forte variabilidade em ‘x intervalos de tempo’ e se complementam no varejo com recursos energéticos distribuídos, incluindo a solar de pequena escala, o armazenamento, a demanda futura de carros elétricos etc. Estas tecnologias vão permitir que o consumidor seja cada vez mais um agente ativo.

 

Aperfeiçoamento: palavra-chave

 

De acordo com o presidente da EPE, para lidar com este cenário de recursos energéticos distribuídos, é preciso aperfeiçoamento, pois esta nova configuração vai ”virar os sistemas de cabeça para baixo”.

 

Barroso avalia os impactos das novas tecnologias no planejamento energético do futuro. Segundo o especialista, no que diz respeito ao atributo “Firmeza [de suprimentos]”, será preciso lidar com recursos que produzem com enorme variabilidade. Já na operação, no que diz respeito ao atributo “Segurança”, os recursos se apresentarão com outro perfil de produção em tempo real, com os quais não necessariamente se poderá contar hora a hora.

 

“Desta forma, é preciso antecipar os ajustes regulatórios antes que os problemas ocorram, porque estas novas tecnologias vão demandar novos processos de planejamento e novas ferramentas, e a relação de risco-retorno vai precisar ser muito bem analisada”, afirma Barroso.

 

Segundo o executivo, o cenário que se apresenta, com participação crescente de geração intermitente, preconiza uma convergência de ações. “A estocasticidade, a capacidade de lidar com as incertezas, a partir das técnicas desenvolvidas, em especial no Brasil, pelo Cepel, para representar sistemas hidrotérmicos, vai ser essencial para países que ainda não representam as incertezas e operam de forma determinística, mais detalhada. E vice-versa.”

 

Como o planejamento vai se adaptar?

 

Será preciso definir melhor as medidas de adequabilidade, dar maior importância à identificação de “Firmeza”, para que a operação possa contar com aquilo que o planejamento acha que efetivamente vai ter. Barroso considera que o planejamento da rede vai ser fundamental. “Neste item, o Cepel poderá contribuir muito, em termos de inovação, com ferramentas probabilísticas de planejamento da expansão da transmissão, que talvez seja o grande problema de um mercado liberalizado”, acrescenta.

 

O especialista também afirma que será necessário um planejamento integrado com outras commodities, por exemplo gás e biocombustíveis, levando em conta cada vez mais os níveis desejáveis de sustentabilidade ambiental.


Quanto ao modelo setorial brasileiro, Barroso destaca que o atual apresenta uma estrutura legal desenhada e baseada em hipóteses e precondições que não se verificam mais, como uma matriz 95% hidrelétrica. “Hoje, somos 65% hidrelétrica. No final da década, a perspectiva é de que sejamos 50%, porque a construção de novas hidrelétricas será cada vez mais complicada. A matriz mudou. Seremos cada vez mais termo, hidro com renováveis. [...] Precisamos rever o modelo setorial, não nos esquecendo dos legados que temos, mas sendo conscientes de que é preciso estudar mudanças. [...] É preciso reconhecer onde o planejamento tem que interferir para corrigir as falhas do mercado, ou seja, aquilo que o mercado não consegue entregar à sociedade”, concluiu.

 

Foco na integração

 

O diretor-geral do ONS, Luiz Eduardo Barata, iniciou sua palestra, reiterando a importância da integração entre os órgãos que fazem o planejamento e a operação e os centros de pesquisas. “Em sua apresentação, Barroso destacou a importância da integração do planejamento e da operação. Um gap entre essas duas partes acaba gerando um risco grave. Justamente por isso, estamos procurando trabalhar de forma absolutamente integrada aqui no Brasil”, afirmou Barata.

 

A respeito da expansão da demanda, o diretor do ONS trouxe dados sobre a previsão de carga, de 2017 para 2021, e apontou uma taxa de crescimento de 3,6% ao ano. Em seguida, abordou as mudanças na matriz de geração, citando algumas implicações na operação.

 

Desafios

 

”Hoje, há maior participação de térmicas e participação já considerável de eólicas, sendo que as térmicas entraram no sistema para compensar a intermitência de outras fontes, como a eólica, mas se tornaram importantes para atender à demanda, principalmente no Nordeste, devido à crise hídrica e à menor importação de energia de outras regiões. Chama atenção também o alto crescimento das eólicas nos últimos cinco anos”, avaliou Barata.

 

Segundo o diretor do ONS, um dos principais desafios da operação, atualmente, é justamente o crescimento da participação de outras fontes. "Desde o início do século passado, a base da matriz era hidrotérmica, mas com participação dominante das hidrelétricas. Então, havia uma previsibilidade muito boa da geração. Com o crescimento das fontes intermitentes, especialmente a eólica, é preciso estudar com maior acuidade suas incertezas, pois a forma de operar o sistema vai mudar substancialmente”, considerou.

 

Barata alerta que, se por um lado não foi vislumbrado, no horizonte de 2017 a 2021, risco no abastecimento de energia, por outro, será preciso fazer uso de recursos mais caros – as usinas termelétricas – para assegurar o atendimento, principalmente na Região Nordeste do país, onde a bacia do Rio São Francisco enfrenta uma seca que remonta há 8 anos.

 

Assim como Barroso, Barata também ressaltou a mudança do papel do consumidor no processo de geração. “A demanda, que até pouco tempo era passiva, agora é parte ativa da cadeia. Tínhamos mais controle, pois a geração era a parte ativa, e a transmissão e o consumo, elementos passivos. Hoje, com a possibilidade da geração por parte do consumidor, da geração distribuída, o consumidor [os grandes consumidores] se torna também um elemento ativo. Precisamos implantar rapidamente mecanismos de resposta à demanda. Quando fizemos a reforma do setor, em 1998, já prevíamos a utilização desses mecanismos, mas agora isso está sendo uma necessidade”, analisou o especialista.

 

O diretor do ONS considera importante a evolução nos mecanismos de aversão a risco, assunto no qual o Cepel tem tido enorme participação. “Em 2013, optamos por implantar o CVaR [Valor Condicionado a um Dado Risco] em nossos modelos computacionais e, desde então, estamos discutindo aprimoramentos no mecanismo ou evolução na metodologia de Superfície de Aversão a Risco [SAR]. Acreditamos que, ao longo dos próximos meses, iremos investir neste trabalho para que possamos adotar estes mecanismos a partir de 2019. Entendemos, portanto, que inovação e tecnologia devem ser a pauta do setor para fazer frente às mudanças que vêm acontecendo”.

 

Debate

 

Após as palestras, o diretor-geral do Cepel reiterou a importância da integração entre os diversos órgãos do Setor Elétrico e informou que, seguindo o exemplo do ONS, o Centro aprovou uma resolução, em abril, convidando o presidente da EPE a participar de seu Conselho Deliberativo, do qual o Operador já faz parte.

 

Em seguida, perguntas complementares ao que foi apresentado pelos convidados enriqueceram o debate. Foram abordadas questões relativas aos esforços que vêm sendo feitos pelas áreas de Planejamento e\ou Operação para tratar alguns “gargalos” do setor e desafios futuros. Estiveram em pauta temas como atrasos em grandes obras e seus impactos; consideração das perdas na expansão do sistema de transmissão; implementação de modelos de previsão climática mais precisos e “em tempo real” para dar suporte à entrada de fontes intermitentes no sistema; e fomento à eficiência energética. Em relação a este último item, o presidente da EPE rememorou um fato relevante e mencionou atividades realizadas pela empresa.

 

 

“O Brasil foi um dos poucos países que, na COP 21 [21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em 2015 em Paris], apresentaram uma meta específica sobre eficiência energética como parte de suas intenções para reduzir a emissão de gases de efeito estufa [...]”. Segundo Barroso, embora o mercado brasileiro tenha grande potencial para o crescimento da eficiência energética, algumas barreiras, como financiamento, sinais econômicos [relacionados a tarifas], o modelo do negócio e a necessidade de maior participação por parte do setor de distribuição, vêm travando o processo. O especialista relatou que a EPE vem promovendo workshops e encontros para delinear ações concretas que possam subsidiar o Plano Nacional de Eficiência Energética.

 

Ciclo de Palestras sobre Inovação

 

“Os Desafios da EPE e do ONS num ambiente de intensas inovações tecnológicas” foi o segundo encontro do Ciclo de Palestras sobre Inovação Tecnológica com Ênfase no Setor Elétrico que o Cepel está promovendo para seu corpo técnico em 2017. A primeira palestra foi ministrada pelo diretor da Coppe/UFRJ, professor Edson Watanabe, sobre a formação de engenheiros mais inovadores no Brasil, em abril.

 

Representando Watanabe no evento, a professora Carmen Lucia Tancredo Borges, chefe da Área de Sistemas de Energia Elétrica da Coppe/UFRJ, expressou seu contentamento em constatar que Cepel, EPE e ONS, com os quais a Universidade já atua em diversos temas abordados durante o encontro, estão trabalhando de forma integrada. “É muito gratificante ver que existe uma sinergia entre todas as frentes. Espero que a universidade continue contribuindo para essa evolução científica e tecnológica nestas entidades”, destacou.