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Múltiplos usos da água: uma questão a ser considerada desde o inventário do potencial hidroelétrico de uma bacia

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Múltiplos usos da água: uma questão a ser considerada desde o inventário do potencial hidroelétrico de uma bacia

27-10-2016

“A integração entre o desenvolvimento hidroelétrico e a gestão de recursos das bacias hidrográficas é crucial para lidar como o nexo água-energia”, destacou o diretor-geral do Cepel, Albert Melo, durante o 23º Congresso Mundial de Energia, promovido pelo Conselho Mundial de Energia entre 9 e 13 de outubro em Istambul, Turquia. “Para atingir esta integração – continuou – alguns fatores são primordiais: política energética e um marco regulatório abrangente, que compreenda ações de planejamento, operação e segurança energética, bem como ferramentas de simulação e otimização para o suporte quantitativo à tomada de decisão”.

 

Melo participou do painel The role of multipurpose hydropower in a water-stressed world, realizado no dia 11. Para debater o tema, também foram convidados os especialistas Richard Taylor, diretor-executivo da International Hydropower Association (IHA); Simone Rossi, vice-presidente sênior da Divisão Internacional da Electricité de France (EDF); e Ernst Zeller, diretor-regional da Hydropower and Renewable Energy (Europe, Middle East, Africa) da Pöyry. A moderação ficou a cargo de William D'haeseleer, diretor do Instituto de Energia da University of Leuven.


A justificativa para o painel reside nos fatos de a hidroeletricidade fornecer mais de 16% da produção global de energia elétrica e de o setor ter o potencial de dobrar sua capacidade para 2 mil GW até 2050, conforme o Mapa de Rotas Tecnológicas em Hidroeletricidade, publicado pela Agência Internacional de Energia (AIE), do qual o Cepel é coautor. Além de fornecer energia renovável e garantir a segurança energética, a hidroeletricidade pode estimular a cooperação regional e ser um pilar para o desenvolvimento econômico. No entanto, o aumento da competição pelo uso da água, uma maior frequência de secas e inundações ao longo das últimas décadas, bem como os efeitos potenciais dos novos desenvolvimentos hidroelétricos em ambientes e comunidades locais são desafios que precisam ser gerenciados.


Diante deste panorama, as discussões do painel giraram em torno de três questões-chave: como o setor pode melhor gerenciar a crescente competição pela água?; quais são bons exemplos de como o setor pode gerenciar secas mais regulares e eventos climáticos extremos?; e se a integração regional é uma condição crítica para incrementar o desenvolvimento de projetos hidroelétricos.


Para o diretor-geral do Cepel, a interação entre água e energia tem de ser tratada dentro de uma abordagem holística. “Os múltiplos usos da água devem ser considerados desde a fase inicial do planejamento, ou seja, na etapa de inventário hidroelétrico de bacias hidrográficas, pois é um passo-chave na direção da sustentabilidade, e deve ser continuado até a fase de operação”, explicou.


Neste contexto, Melo menciona que o Cepel desenvolveu, em virtude da singularidade do setor elétrico brasileiro, uma cadeia de ferramentas para simulação e otimização energética em sistemas de grande porte, em uso em todo o país. Como exemplo, cita o Manual de Inventário Hidroelétrico de Bacias Hidrográficas. Elaborado com apoio do Governo Brasileiro e do Banco Mundial, a publicação reúne critérios, procedimentos e instruções para a realização deste inventário, partindo da premissa de que é a melhor fase para identificar os impactos socioambientais do conjunto de aproveitamentos sobre a bacia hidrográfica.


Na etapa de inventário, são estudadas várias alternativas de divisões de queda em relação às energias geradas, custos de construção, impactos socioambientais e outros planos de uso da água na bacia. As múltiplas interações são então analisadas para gerar as melhores escolhas, considerando-se os diferentes interesses. “O objetivo é encontrar um equilíbrio entre o custo da produção de eletricidade, os impactos socioambientais [positivos e negativos] e os usos múltiplos da água”, sintetiza Melo.


Outra ferramenta citada pelo diretor do Cepel são os sistemas de leilões de compra de energia, que asseguram o fluxo de caixa futuro devido à duração dos contratos com as distribuidoras - que giram em torno de 20 a 30 anos. De acordo com ele, um projeto para ser aceito no procedimento de leilão precisa atender a vários requisitos, dentre eles ter o Estudo de Viabilidade e a Licença Ambiental Prévia aprovados, bem como uma declaração de disponibilidade de reserva hídrica por parte da Agência Nacional de Águas (ANA), que aborda, dentre outros fatores, a quantidade de água disponível para geração elétrica e qual o regime de utilização.


Eventos extremos e capacidade de previsão


No que diz respeito a eventos extremos, o diretor-geral do Cepel argumenta que os impactos atingem não só o setor elétrico, mas toda a infraestrutura. Para lidar com estas situações, é preciso contar com dados confiáveis e também aperfeiçoar as ferramentas analíticas para melhor considerar eventos climáticos e de tempo. “Ainda existe uma lacuna entre os modelos climáticos e os energéticos. É preciso reduzir este gap [...]”.


Para Melo, levar em conta a diversidade hidrológica é muito importante para lidar com eventos extremos, em especial quando se tem um sistema interligado como o do Brasil. O especialista relatou um pouco da experiência vivenciada nos últimos anos, quando o país passou por um período hidrológico severo em suas principais regiões produtoras de energia elétrica.


De acordo com ele, a partir dos modelos de otimização e simulação energética desenvolvidos pelo Cepel, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) pôde recomendar a redução da vazão mínima da bacia do rio São Francisco - de 1300 para 800 metros cúbicos por segundo (m³/s). À época, segundo Melo, a decisão foi questionada pelos outros usuários da água do rio, mas, com o passar do tempo, foi considerada um acerto, pois permitiu armazenar água no reservatório, viabilizando outros usos, o que vem acontecendo.


Outro exemplo citado por Melo foram as grandes afluências na região Sul, em 2015, quando os modelos de controle de cheia desenvolvidos pelo Cepel tiveram sucesso em sua aplicação para minimizar fortemente os impactos a jusante das usinas.


Melo também teve a oportunidade de mencionar os resultados do projeto de balanço de carbono em reservatórios de hidrelétricas (Balcar), contribuição brasileira no âmbito da força-tarefa da AIE, coordenada pelo Cepel, no qual foi desmistificado o conceito errôneo de que reservatórios de hidrelétricas em regiões tropicais são fontes relevantes de emissões de gases de efeito estufa.


Durante sua fala, o diretor do Cepel ainda salientou que, no seu ponto de vista, o desenvolvimento da hidroeletricidade pode ser um grande impulsionador para a integração regional da América Latina e deixou em aberto outra questão sobre os usos múltiplos da água: como alocar os custos, benefícios e riscos entre os múltiplos usuários deste importante recurso natural?


Sobre o Congresso Mundial de Energia


Principal evento do Conselho Mundial de Energia, o congresso é realizado a cada três anos e conta com a participação de mais de 3 mil organizações-membro, incluindo governos, indústria, organizações internacionais e grupos sem fins lucrativos. O Cepel é um membro coletivo do Comitê Brasileiro do Conselho Mundial de Energia.


Este ano, os quatro dias do evento giraram em torno do tema “Abraçando novas fronteiras”. O primeiro dia debateu a visão e cenários para o futuro; o segundo foi dedicado à identificação de oportunidades de negócios; o terceiro, à discussão de soluções políticas para assegurar prosperidade. No último dia, o foco foi como assegurar um futuro energético sustentável à África. Participaram do evento líderes e especialistas de 82 países, incluindo 56 ministros.