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Brasil passa a calcular o preço da energia de forma horária

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Brasil passa a calcular o preço da energia de forma horária

08-01-2021

 
A exemplo de outros países, como Chile, Noruega e Colômbia, o Brasil passou, desde 1º de janeiro deste ano, a calcular o preço da energia em base horária. Até então, o PLD (Preço de Liquidação de Diferenças), referência para contratos de compra e venda de energia no mercado livre, era calculado em base semanal. A mudança só foi possível com a adoção oficial, pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), do modelo computacional DESSEM, desenvolvido pelo Cepel. Com isso, o sistema brasileiro ganha maior aderência entre preço e operação e mais segurança do ponto de vista elétrico e energético. 
Do ponto de vista do diretor-geral do Cepel, Amilcar Guerreiro, a nova forma de precificação apresentava-se fundamental em face da mudança no perfil da matriz elétrica brasileira nas últimas décadas. Embora a matriz brasileira ainda seja uma das mais sustentáveis do mundo, com mais de 82% provenientes de fontes renováveis, está mais diversificada, com a redução da participação da fonte hidráulica e o avanço de fontes como eólica e solar, de maior variabilidade ao longo do dia, em sua composição.
“Atento a este cenário, o Cepel dedicou-se a viabilizar uma solução robusta. O modelo matemático DESSEM possibilita a definição do PLD horário com alto grau de precisão, isto é, levando em conta uma representação efetiva da geração e da transmissão de energia, bem como da carga a ser atendida, tudo aderente à realidade desse complexo sistema de dimensões continentais. A expectativa é que este processo se converta em ganhos para os consumidores finais”, destaca Guerreiro.
"Temos a convicção de que o PLD Horário é um divisor de águas para o setor elétrico brasileiro. O novo modelo não só traz uma aproximação entre a precificação e a realidade operacional da geração e do consumo de energia, mas também abre espaços e oportunidades para a modernização contínua do nosso mercado. Com o sucesso da implementação do Modelo Computacional DESSEM, vamos continuar a busca por aprimoramentos metodológicos para a formação de preços no Brasil e proporcionar melhorias constantes na alocação de custos e riscos", destaca Talita Porto, vice-presidente do Conselho de Administração da CCEE.
Além de seus benefícios imediatos, a nova forma de precificação horária pode trazer vantagens adicionais no futuro ao Brasil, como o estímulo ao desenvolvimento de mecanismos de armazenamento de energia, visto os possíveis ganhos que a utilização desses dispositivos pode proporcionar aos consumidores que estão expostos ao preço spot de energia.
O DESSEM na programação diária da operação
O modelo DESSEM já vem sendo utilizado oficialmente pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) desde janeiro de 2020 para a programação diária da operação, definindo a ordem de despacho das usinas e dando suporte à titulação das usinas termoelétricas e remuneração dos agentes . O DESSEM atua de forma integrada com os modelos DECOMP e NEWAVE, também desenvolvidos pelo Cepel e já utilizados desde 2000 para o planejamento da operação e formação de preço no Sistema Interligado Nacional (SIN).
De acordo com o diretor de Operação do ONS, Sinval Zaidan Gama, o primeiro ano de aplicação do modelo DESSEM na programação diária foi de superação, de aprendizado, de transparência e principalmente de sucesso. Tudo isso conquistado com a participação dos agentes do setor, que atuaram ativamente neste processo, tendo que se adaptar, rever suas atividades e aprender a trabalhar de uma nova maneira.” Nesse período, tivemos que fazer ajustes no modelo, claro, todo modelo precisa de ajustes, em especial um modelo em seu primeiro ano de aplicação. Ao todo, foram empregadas cinco versões, cada uma validada pela FT-DESSEM, que contou, novamente, com a valiosa contribuição dos agentes. É importante mencionar, também, o empenho e o compromisso com a excelência, demonstrados no trabalho conjunto das equipes do ONS e do Cepel, envolvidas nesse processo”, avalia.
O diretor do ONS explica que, ao longo desses 12 meses, foi necessário aplicar o procedimento de contingência em 13 (treze) ocasiões. Dessas contingências, em apenas um dia não houve publicação dos resultados do modelo por falha de processo. “No entanto, é importante ressaltar que o processo da programação diária da operação, como um todo, exige respostas ágeis para os desafios enfrentados para, ao final de cada dia, entregar para a sala de controle uma programação de geração seguindo padrões de confiabilidade e assegurando a devida transparência. Neste contexto, entende-se que, apesar de todo o esforço, o acionamento dessas contingências é inerente à complexidade de todo o processo”.
Gama acrescenta, ainda, que as equipes do ONS seguem com o compromisso de investir constantemente em melhorias na representação e aplicação do modelo DESSEM, bem como em todo o processo de programação diária, e afirma que, após todo esse percurso, estão aptos e seguros para entrada do preço horário.
 
Contínua parceria
 
De fato, a entrada oficial do DESSEM em 2020 pelo ONS e 2021 pela CCEE só foi possível pelo trabalho intenso de diversas instituições envolvidas no processo, além da participação ativa dos agentes. “Apesar de o DESSEM já ter passado por dois processos prévios de validação pelo ONS ao longo de seus mais de 20 anos de existência, como o modelo está sempre evoluindo e incorporou, nos últimos anos, funcionalidades complexas e de grande impacto nos resultados, como as restrições de unit commitment térmico e as restrições de segurança da rede elétrica, foi necessário um processo intenso de validação, que se iniciou em outubro de 2017”, relata André Diniz, chefe do departamento de Otimização Energética do Cepel e gerente do projeto DESSEM.
Este processo de utilização do DESSEM contou não só com a participação do Cepel na concepção e implementação das metodologias para modelagem e resolução do problema, mas, também, teve apoio fundamental das instituições, notadamente o ONS e CCEE, na análise criteriosa e exaustiva das metodologias e resultados, e contribuindo com propostas de melhorias. Além disso, por meio de uma força-tarefa, FT-DESSEM, foram realizados mais de 1.200 testes unitários e sistêmicos do modelo, e os agentes também puderam participar do processo, identificando requisitos adicionais para representação adequada das restrições.
“Além de todo esse processo de validação, o modelo DESSEM ainda passou a ser executado diariamente pelo ONS e CCEE desde 16 de abril de 2018, portanto, a cada dia, o modelo era posto à prova, com dois novos testes contemplando diferentes situações operativas e particularidades no atendimento às restrições”, complementa André.
Rodrigo Sacchi, gerente executivo de Preços, Modelos e Estudos Energéticos da CCEE, afirma que a instituição está muito satisfeita em ter participado ativamente do desenvolvimento e implantação do modelo DESSEM. “A implantação do Preço de Liquidação das Diferenças em base horária (PLD horário) no dia 01 de janeiro deste ano só foi possível, fundamentalmente, com o amadurecimento do modelo DESSEM pelo CEPEL. Evidente que, nos últimos 3 anos, CCEE, ONS e todos os agentes do setor elétrico se dedicaram muito para isso, o que nos deixa muito satisfeitos com o resultado alcançado. É preciso destacar a importância dessa mudança da forma de precificação da energia, uma vez que melhora significativamente o sinal econômico do preço da energia spot, pois passamos a refletir melhor a condição operativa do sistema a cada hora do dia. Isso implica num novo ambiente de comercialização de energia, no qual os agentes passam a atuar com maior eficiência, por exemplo: mobilizando recursos de geração nos instantes necessários ao sistema; modulação dos montantes de energia contratados; e implantação de projetos de armazenamento de energia. Ou seja, um ambiente mais dinâmico e eficiente do ponto de vista físico e comercial”.
Conforme relata Mário Jorge Daher, do ONS: “Para mim foi motivo de muito orgulho ser o Gerente Executvo responsável pelas equipes técnicas de metodologia (PE/PEM) e carga (PE/PEC) do ONS que se envolveram diretamente com as demais instituições no âmbito da CPAMP e com o CEPEL, desde julho de 2017, discutido os requisitos mínimos para a entrada do modelo DESSEM em 1 de janeiro de 2020 na Programação Diária da Operação do ONS. Foram basicamente três grandes temas que exigiram grandes esforços das equipes técnicas e dos dirigentes de cada instituição: Metodologias e Critérios; Implantação e Validação do Modelo junto aos agentes setoriais; e Aspectos Regulatórios. Agora com o Preço Horário, a partir de 1 de janeiro de 2021, conclui-se a Cadeia completa do Modelo Mercantil Brasileiro desenhada no final da década de 90 utilizando os Modelos NEWAVE, DECOMP e DESSEM."
O processo não para por aqui: a necessidade crescente de incorporação de novas metodologias no modelo, demandadas pela “Comissão Permanente para Análise de Metodologias e programas Computacionais do Setor Elétrico (CPAMP)”, além das forças- tarefas do modelo com participação dos agentes, requerem que novas funcionalidades sejam incorporadas no futuro, como as restrições de unit commitment hidráulico, que estão no calendário de atividades da CPAMP em 2021, publicado no site do Ministério de Minas e Energias (MME), e com prazo para entrega pelo Cepel no segundo semestre de 2021.
Para uma compreensão mais ampla do DESSEM, o Cepel oferece treinamentos que cobrem principalmente aspectos metodológicos do modelo, como o último oferecido em dezembro de 2020, que contou com cerca de 90 participantes (veja aqui). A documentação técnica dos modelos da cadeia energética do Cepel pode ser consultada neste link.