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Formação de engenheiros mais inovadores é tema de palestra de diretor da Coppe/UFRJ no Cepel

20-04-2017

“A inovação tem que estar no dia a dia dos pesquisadores e técnicos do Cepel”, ressaltou o diretor-geral do Centro, Marcio Szechtman, ao mencionar uma das motivações que levaram a Diretoria Executiva da instituição a idealizar um ciclo de palestras sobre inovação tecnológica com foco no setor elétrico para o ano de 2017. O convidado para a palestra inaugural, realizada no dia 10 de abril na Unidade Fundão, foi o professor Edson Watanabe, diretor da Coppe/UFRJ.

 

Sobre o tema de sua apresentação – O que falta para formarmos engenheiros mais inovadores –, o professor Watanabe considera: “Cheguei à conclusão de que não estamos formando profissionais engenheiros – e outros profissionais – que estejam preocupados em inovar. Nesse sentido, quero dar um alerta sobre a necessidade de começarmos a pensar na formação desse tipo de profissional, inovador”. Em sua reflexão, o diretor da Coppe abordou questões como a definição técnica do que seja inovação, aspectos relacionados a investimento e patente e falou ainda sobre o Programa de Iniciação à Inovação (PI²), que está em fase de implantação na Coppe.

 

Estiveram presentes no evento, além do diretor Marcio Szechtman, os diretores do Cepel Raul Sollero (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação - DP) e Alcêo Mendes (Laboratórios e Pesquisa Experimental - DL), chefes de departamento, pesquisadores e técnicos do Centro.

 

A palestra

 

Watanabe iniciou sua palestra, classificando os projetos de engenharia em três categorias: projetos de rotina, projetos de desenvolvimento & inovação e projetos de pesquisa. Segundo o professor, na primeira categoria, há a aplicação de conhecimentos consolidados da academia e da indústria e, portanto, são projetos com previsibilidade alta e risco baixo. Estes projetos são o campo de atuação dos engenheiros de projeto (ou de aplicação), que são fundamentais para “fazer a máquina funcionar”.

 

Na categoria “projeto de desenvolvimento & inovação”, é necessário utilizar não só os conhecimentos adquiridos, mas também desenvolver novos conhecimentos para solucionar os problemas encontrados. Estes projetos têm previsibilidade média, e os riscos assumidos são médios a altos. “Por último, os projetos de pesquisa utilizam todos os conjuntos de conhecimentos, especialmente aquilo que nem sabemos que não sabemos”, explicou Watanabe. Neste tipo de projeto, segundo ele, os engenheiros de pesquisa atuam buscando solucionar problemas e descobrir novos conhecimentos. “Pela própria natureza, estes projetos possuem baixa previsibilidade e riscos altos”, ressaltou o professor.

 

Para mostrar a diferença entre projetos de pesquisa (descobrir novos conhecimentos) e projetos de inovação (desenvolver novos conhecimentos), Watanabe usou uma citação de Mario Borges, presidente do CNPq: “Ciência transforma dinheiro em conhecimento. Inovação transforma conhecimento em dinheiro.” Neste contexto, o Brasil é o 13º colocado em produção científica no mundo, enquanto que, no quesito inovação, está na 69ª posição, um índice considerado baixo.

 

Watanabe apresentou sua própria definição de inovação utilizando-se do conceito de TRL (Technology Readiness Level, ou, em português, Nível de Amadurecimento da Tecnologia). O TRL é uma invenção da Nasa, adotada pela ABNT (NBR ISO 16290), e consiste em uma escala de nove níveis que enquadram uma tecnologia desde a sua elaboração teórica até sua aplicação em ambiente real. Segundo o professor, só se considera inovação uma tecnologia desenvolvida até o nível nove (no caso de sistemas aeronáuticos) ou nível oito (no caso de sistemas terrestres).

 

“Há pessoas que acham que inovaram porque tiveram uma boa ideia, conseguiram uma patente ou escreveram um artigo, mas isso não é suficiente. Só é inovação quando isso chega ao mercado”, simplificou o professor. Para exemplificar, explicou que, para alcançar o nível nove na escala TRL, um novo modelo de avião deve ser submetido a vários testes de pouso e decolagem em condições adversas e acumular certo número de horas de voo.

 

Sobre patentes, Watanabe confessou não conhecer profundamente as questões burocráticas, mas afirmou que, no Brasil, ainda não se conseguiu uma de “sucesso” em sentido financeiro. E é justamente a questão do investimento e do retorno, segundo ele, uma das maiores dificuldades para se inovar no Brasil.

 

“É preciso criar um meio para que a pessoa que inove tenha retorno financeiro. Havendo um exemplo, surgirão outros. É o que acontece no futebol, e em quase tudo por aí: aparece um [que consegue retorno]; depois aparecem outros que irão seguir o mesmo caminho.”, afirmou o professor. Neste aspecto, Watanabe mencionou que a taxa de sucesso das inovações em uma empresa de tecnologia é de cerca de 0,5%. Dito de outro modo, este número significa que uma a cada 200 inovações tecnológicas lançadas por uma empresa se torna um produto comercial lucrativo e de ampla utilização.

 

Programa de Iniciação à Inovação

 

Ao longo de sua palestra, o professor mencionou algumas iniciativas voltadas à inovação, como o Programa de Iniciação à Inovação (PI²) da Coppe. O PI² despertou o interesse dos participantes e foi tema recorrente no tempo destinado a debate ao fim da palestra.

 

“A ideia é que os alunos que vão estar no programa da Coppe tenham um ambiente para discutir. É para ser um espaço criativo, de troca de ideias. [...] Um espaço multidisciplinar, que reúna não só engenheiros, mas também arquitetos, desenhistas industriais, o pessoal da parte ambiental [...] Pois se o profissional fizer o projeto só dentro da Engenharia, vai ser um caixote que ninguém vai comprar. Tem que ser atrativo, de fácil uso, respeitar normas ambientais, dentre outros pontos”, explicou o professor, ao se referir a requisitos que vão além da esfera da Engenharia.

 

Watanabe explicou que o PI² também pretende propor desafios temáticos aos alunos, em um modelo parecido com o da Nasa. “Eles escolhem vários assuntos a serem estudados – por exemplo, viagem a Marte – e lançam um desafio; então selecionam projetos de grupos de estudantes e trabalham a partir daí. Das boas ideias, surgem investimentos para o desenvolvimento de projetos e, posteriormente, produto [...]. Acho que nós [Coppe e Cepel] poderíamos pensar em lançar um desafio. O aluno, quando é desafiado, em geral faz coisas interessantes”.

 

Segundo o professor, o laboratório do PI² terá alguns equipamentos de uso comum. Um deles deve ser uma impressora 3D. Os outros equipamentos, mais específicos, o aluno poderá usar nos demais laboratórios da instituição.

 

Mediador do debate que se seguiu à palestra, o diretor Raul Sollero destacou dois pontos relevantes da apresentação do professor Watanabe: os passos finais, indicados pelo professor, para transformar um projeto efetivamente em uma inovação, afirmando que o Cepel tem procurado se esmerar para ter sucesso nisso; e a necessidade de se criar um ambiente mais propício à inovação, convidando os participantes a refletir sobre a funcionalidade dos espaços.

 

Relação Cepel-Coppe

 

O diretor-geral do Cepel, Marcio Szechtman, falou sobre o desejo de tornar a inovação uma prática habitual na vida do Centro. “Como inovação é uma palavra de uso muito amplo, vimos que temos que direcionar nossa mentalidade para aquilo que é efetivamente inovação. O professor Watanabe foi a primeira pessoa que procuramos, e o objetivo do Ciclo de Palestras que vamos realizar é internalizar essa ideia de perseguir sempre o objetivo de fazer um produto um pouco melhor, mais inovador, com mais valor agregado”, afirmou.

 

O diretor falou ainda sobre o desejo de intensificar as relações com a Coppe. Nas palavras de Szechtman, a Coppe é “um parceiro natural” pela proximidade [Cepel e Coppe estão sediados na Cidade Universitária, na Ilha do Fundão]. “Queremos trabalhar com a Coppe/UFRJ de forma muito estreita, sem prejuízo de outras universidades que são muito boas, com as quais temos contato também. Mas a Coppe, pela proximidade e histórico de realizações e cooperação, é uma instituição que, naturalmente, deverá receber atenção especial para promover nossos objetivos comuns”. Ele afirmou ainda ter grande interesse no laboratório do PI². “Penso que o Cepel poderia participar de alguma forma para agilizar e viabilizar este laboratório”, concluiu.

 

Em resposta, Watanabe disse que, como o programa ainda está sendo implementado, é possível pensar em temas relacionados ao sistema elétrico para serem desenvolvidos. O objetivo, repetiu ele, é desafiar os alunos a pensarem criativamente e a desenvolver suas ideias até tornarem-se produtos no mercado, uma utilidade.